Aula de bike

Ontem (depois de 05 meses frequentando a academia assiduamente) me aventurei em minha primeira – e por muito tempo UNICA – aula de bike.

 

Todo mundo dizia que a aula de bike era bem puxada, e como eu nunca em dei bem com esses veículos de duas rodas, fui postergando ao máximo este dia. Inventava mil desculpas, o marido, a vizinha, os gatinhos.. tudo era desculpa para eu ir embora e “cabular”, mas a pro Erika (adoro ela) me seduziu dizendo que a aula estava uma delícia, que eu deveria fazer, que não estava tão puxada assim, fez até carinha de Gato de Botas pra me convencer… e lá fui eu iludida pra salinha das bicicletas.

 

Já arrependida de ter cedido à chantagem emocional da pro, adentrei à sala e me deparei com vários monstros de duas rodas (sim, tenho trauma de bicicletas, história triste da minha infância… outro dia eu conto), foram me sugeridas duas do fundo “os celins são os mais confortáveis” e lá fui eu – rezando pra Santo Espedito afinal, nessa hora o sincretismo religioso é tudo! – me apresentar à minha companheira, achei ela meio rígida e introspectiva de início mas quando terminou a aula essa impressão tinha sido transformada… continuem lendo…

 

Altura regulada, carga ajustada, lá fomos nós receber as primeiras instruções. Aprendi que nas aulas de bike temos três “pegadas” (jeitos de pegar num guidão) mas que só iríamos trabalhar com duas, as músicas que iriam embalar nossa odisseia também mereceram explicações, músicas da Madonna no início da carreira pra nos inspirar, todas com um número ‘x’ de batidas por minuto… e eu num misto de terror e excitação… eu em cima de uma bicicleta ouvindo Madonna adolescente, na pegada dois, a umas 140 bpm… o Chuck Norris ficaria acuado, eu tenho certeza! Até por que se pra mim doeu, e muito, ficar sentada naquele celim (o mais macio), imagina para um homem… Deus tenha piedade de nossas partes sensíveis!!!

 

Mas eu não me acovardei como vocês devem estar imaginando! Não não, aguentei firmemente a aula até o fim – os 20 minutos mais longos da minha vida – só no começo que eu exagerei na carga e não consegui pedalar, mas depois consegui fazer tudinho, com o coração na garganta.

 

Quando o martírio finalmente acabou e eu pude descer da bike me senti como aqueles bonequinhos que são presos por um barbante, aqueles que a gente aperta e eles desmontam sabe? Parecia que meu joelho tinha saído pra tomar um café na padaria da esquina, eu não conseguia dar um passo sem dar aquela bambeada básica, resultado: Fui me escorando até a saída da academia, não riam! Isso é muito triste…

 

A volta pra casa foi lenta e gradativa, fui cantando aquela música “Ando devagar porque já tive pressa…” elevações na calçada eram o que mais me faziam sofrer pois não tinha segurança pra me sustentar numa perna só (mesmo que por milésimos de segundo), e a descida dos dois lances de escada pra entrar finalmente em casa? Daí nessa hora a gente lembra do Chapolin “todos os meus passos são friamente calculados” e assim me fui… Meu marido (beijo amor) viu o estado no qual cheguei, despenquei no sofá e só saí de lá meia hora depois pra comer alguma coisa – Só a fome era maior que o cansaço – comi em pé com medo de sentar e não levantar mais, dobrar o joelho era a pior coisa que eu poderia fazer naquele momento, ele não estava muito consciente de si e de sua função em meu corpo. Minha coxa estava tendo um ataque epilético, era um passo e uma tremidinha, outro passo, outra tremidinha, ou seja, ela vai doer muito ainda!!! Aiiiii

 

Conclusão: A aula de bike é a melhor coisa para que quer ficar em forma, trabalha quase todos (senão todos) os músculos do corpo, desde panturrilha e quadríceps até os músculos do tórax, abdome e adjacências, mas tem que ser muito, mas muito mesmo, persistente pois o pós aula é assustador, pelo menos no início.

Pra mim valeu como a comprovação da minha superioridade ante a bicicleta, eu consegui subir nela e não cair (claro que ajudou o fato de ela estar presa a uma base perfeitamente aderida ao piso da academia), além da alegria de ter sobrevivido a uma das aulas mais intensas da história da humanidade!!! rsrs.

 

Não sei quando vou voltar àquela salinha, creio que não será semana que vem, até porque faço musculação no mesmo horário [:D], só sei que lembrarei desde dia por muito tempo. Até as partes que nunca doeram (tipo meus ísquios), estão excessivamente doloridas hoje. Recomendo a aula à todos aqueles seres destemidos que não se curvam diante das dificuldades e que adoram novos desafios… por mim já deu!

Mal Secreto (Inveja)

O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde.

Uma série tentadora: a coleção Plenos Pecados reúne sete livros diferentes, sete autores talentosos, cada um deles escrevendo sobre um vício capital: inveja, luxúria, avareza, preguiça, ira, soberba e gula. Um convite à reflexão – e também ao prazer. - Vou então me aventurar neste universo de prazer e pecado e quem quiser que me acompanhe, sem culpas, nesta jornada. E para começar com o pé direito (pois o esquerdo dá azar) vamos nos emaranhar nas teias da INVEJA!!!!

Este livro foi escrito pelo queridíssimo Zuenir Ventura (Jornalista e escritor renomado, autor de 1968 – O ano que não terminou, além de muitos outros livros maravilhosos).

No livro Zuenir é autor e personagem, temos a impressão de estar ao seu lado em sua caça à inveja, nos sentimos inseridos no contexto, identificamos pensamentos, sentimentos, antevemos alguns acontecimentos (típicos) dos invejosos, afinal, quem de nós já não sofreu na mão de um invejoso, uma vezinha sequer, nesta vida?

A inveja é o pecado mais famoso entre os brasileiros, mas quase ninguém admite que sente ou já sentiu inveja de alguém na vida, algo meio controverso, diga-se de passagem, pois a maioria diz que é ou já foi invejado pelo menos uma vez. Se tem tanto invejado assim onde é que foram parar os invejosos?

Queria transcrever o livro inteiro aqui, mas não posso, óbvio, então segue um trecho do capítulo “Caim e Abel”, o primeiro (e mais famoso) caso de inveja conhecido, cuidado, qualquer semelhança de sentimentos não é mera coincidência!!!

(…) Contagioso, propagou-se pela Terra; atacou desde o início. Como se sabe, o primeiro ser humano fecundado pelo sêmen de um homem numa mulher, o que experimentou a relação primal de prazer e frustração, o que mamou no seio materno, esse já nasceu com o sangue contaminado pelo vírus da inveja. Talvez tenha sido ele, o primogênito, e não seus pais, o autor do verdadeiro pecado original, até porque desobedecer não está entre os nossos sete principais delitos. Será que já não dava para desconfiar de um projeto cuja primeira ação foi a desobediência e a segunda um homicídio?

Mas isso é outra história. O que não se discute é que foi graças à inveja (…) que o primeiro crime da história repercutiu tanto até hoje, fazendo de Caim e Abel os dois dos personagens mais populares da Bíblia.

A inveja foi a responsável pela transformação do que deveria ter sido um episódio fraterno num vergonhoso caso de polícia, com um assassino e uma vítima inaugurando a violência no mundo.

(…)

Com todo respeito se pergunta: por que esse silêncio de Deus diante da morte dos inocentes? Não se poderia ler essa história como a vitória da impunidade? A defesa de Caim sempre alegou que ele tinha que ser protegido da vingança. Mas de quem, se com a morte do irmão ele estava praticamente sozinho na Terra?

Outro mistério é que qualquer pai sabe que não se deve preferir um filho ao outro, sob pena de condenar o rejeitado ao divã  de um psicanalista ou à cadeia – ou então, quando se livra disso, como no caso de Caim, a uma vida errante. Embora sem participação no episódio, Adão e Eva certamente teriam  o que declarar, mas não se sabe por que não foram ouvidos. (…)

Como eu disse, a vontade é de copiar o livro todo, mas aí não tem graça não é? Fico por aqui pois tem muita coisa sobre a inveja que ainda não li, se interessar fica a dica:

Título: Mal Secreto – Inveja – Coleção Plenos Pecados

Editora: Objetiva

Autor: Zuenir Ventura

Valor: entre R$30,00 e R$50,00

O Castelo nos Pirineus

Terminei de ler (pela segunda vez) o livro O Castelo nos Pirineus do meu queridíssimo Jostein Gaarder.

Não vou me deter muito nos elogios ao autor pois gastaria todos os caracteres possíveis e não conseguiria descrever o quanto gosto não só da sua narrativa mas de tudo o que lhe diz respeito, limito-me a indicar para aqueles que ainda não o experimentaram, vocês não sabem o que estão perdendo!

Vamos ao livro:

Por cinco anos intensos na década de 1970, Steinn e Solrunn foram felizes. Então tomaram rumos diversos, por razões desconhecidas a ambos. No verão de 2007, depois de trinta anos distantes, eles se encontram por acaso no terraço de um velho hotel de madeira às margens de um fiorde no oeste da Noruega, um lugar intimamente relacionado à separação no passado. Mas terá sido esse encontro, em lugar tão significativo, um mero acaso?
Buscando respostas a essa pergunta, e para entender como um relacionamento que prometia ser duradouro pôde acabar subitamente, o ex-casal começa uma frenética troca de e-mails – a matéria e a forma deste novo romance filosófico de Jostein Gaarder, que desta vez conta uma história de amor para discutir o embate entre o racionalismo e a espiritualidade. Na linguagem dessas missivas apressadas que inundam nossa vida cotidiana, os dois esboçam visões de mundo antagônicas e explicações contraditórias para o fim do romance. De um lado, o climatologista Steinn apenas crê no que pode ser provado pela ciência e pela razão. De outro, Solrunn, uma mulher religiosa, acredita na transcendência, em um espírito além do corpo e de nossa existência terrena. Disso resulta que as experiências compartilhadas pelos dois no hotel no litoral (a de trinta antes e a do verão corrente) serão entendidas de modo muito distinto por cada um. Apesar de se respeitarem, eles não podem concordar com a concepção do outro – até que suas certezas sejam postas à prova.

O livro é, do início ao fim, uma discussão entre ciência e religião, mas não uma discussão acalorada, dessas que estamos acostumados a ver, cada um irredutível em seu ponto de vista, nele estes dois pontos, historicamente divergentes, tentam compreender um ao outro, enxergar com os olhos do outro e encontrar um ponto comum em meio à tantas divergências.

Para isso o Gaarder usa a figura de um jovem casal de namorados que se separaram por não conseguirem lidar com uma situação que viveram juntos, e que, 30 anos depois, se reencontram (por acaso ou não) e decidem quebrar o voto de silêncio e voltam a falar, e tentar entender, o que de fato os separou.

Bom, para da água na boca, segue um trecho em que a Solrun questiona o Steinn sobre o ser humano:

O que é o ser humano, Steinn? Quantas vezes você pensa que, por baixo da fina película da epiderme sensível ao toque, a sua coxa ou o seu antebraço são de carne e osso? Já tentou imaginar a aparência dos seus intestinos? Quer dizer, por dentro! E por acaso eles são você? Onde ancorar essa coisa que hoje é o seu sujeito real, que diz eu, que sonha e pensa? Na vesícula biliar ou no baço? No coração ou nos rins? Ou será que não vale mais a pena procurar esse ancoradouro na alma, no espírito, naquele que é, já que tudo o mais não passa de um tiquetaque do relógio, de um grão de areia na ampulheta? Lama e lodo, caso você queira saber.

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